Poderia ter passado em branco o mês que conheci Laís-meio-sorriso, assim como a maioria dos que tinha vivido até então, mas era Setembro. Subindo ladeira abaixo, chutando latinha pelo chão, cinco reais no bolso e três moedas, vi uma menina sentada num banco da praça, e pensei que era um desperdício uma só pessoa ocupar um banco inteiro em um lugar tão cheio. E praças são cheias em dias de domingo, cheias de nostalgia.
Estranhezas de lado,sentei-me ao lado dela, e a convidei para dividir um pacote de pipoca e algumas intimidades. Não falamos sobre política, sobre o tempo, nem sobre os pombos que recolhiam as migalhas no chão. Falamos sobre algo interno, sobre aquela melancolia profunda que eu escutava no seu olhar, sobre aquela curiosidade exagerada que ela via nas minhas perguntas.Falamos sobre nós. Depois de alguns meio-sorrisos, poucas histórias e muitas horas, percebi que quanto mais queria conhecer aquela menina, mais ela me conhecia.
Descobri que nem sempre Laís foi meio-sorriso, houve um tempo, disse ela, que ao contrário do que pensei, não existia nem um meio-sorriso, Laís não sabia sorrir. Pensei que eu poderia então ajudá-la, contar piadas, fazer cócegas, dar cambalhotas (se eu as soubesse fazer), qualquer coisa assim, em nome daquela recente e interessante amizade.
Ela cortou meu pensamento quase ao meio, posso te fazer uma pergunta? não cansa rir tanto e não achar graça de nada?, era assustador alguem que nem sabia sorrir direito desvendar a minha tristeza, dei um meio-sorriso pra disfarçar. Acho que quando a gente se olhou, deve ter pensando quase que ao mesmo tempo, dois meio-sorrisos, iguais a um sorriso inteiro.*

